Espaço inspirado pela "práxis" Paulofreireana em que ação e reflexão são constituintes indissociáveis no processo de ser no mundo.
Páginas do Reflexações
quinta-feira, 1 de julho de 2010
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Sobre a Copa e o Código Florestal
Sob uma trave desproporcionalmente grande para um jogo justo coloca-se o goleiro, o meio ambiente brasileiro, já contundido por diversos tipos de entradas violentas por parte de seus opositores: queimadas, desmatamentos, poluição, contaminações etc.
Do "lado oposto do ringue", ajeitando sedento a bola na marca do penalti, a liderança (?) política brasileira responsável por, após tanto tempo, levar o campeonato para seu lado, qualquer que seja o custo para tal. A situação é extremamente tensa. Ao contrário de vezes anteriores, o meio ambiente brasileiro aparenta estar em situação de absoluta vulnerabilidade e, debaixo de traves ameaçadoras, não parece ser capaz de oferecer a segurança necessária.
O juiz apita. O relatório sobre as mudanças do Código Florestal começa a ser lido.
O correr do atacante, para estranhamento do público, demonstra algo de desajeitado, como se a tarefa tivesse sido estendida a alguém inapto. Não treinou? Não consultou especialistas no assunto? Achou que qualquer coisa valeria? Os outros jogadores do time, nesse momento de decisão em que podem ser expostos diante do público crítico, haviam desaparecido.
Para alívio da torcida pelo meio ambiente, o chute proferido se saiu tosco. Daqueles que, se narrado pelas vozes radiofônicas de Ribeirão Preto, seriam imediatamente seguidos do "jingle" separado especialmente para quando a bola se perde, desolada, no fundo do campo e por demais longe do objetivo: "Good bye my love!".
Apesar de longe dos olhos do grande público, mais preocupado com outra seleção, a "pernaiada" do atacante é observada de perto por alguns presentes na contenda, que não se privam de comentá-la (artigos publicados na folha e no estadão. Alguns não dão acesso livre mas podem ser encontrados em outros sítios: http://www.gabeira.com.br/noticias/temas/meio-ambiente/2379-parlamentar-comunista-vira-ideologo-da-bancada-ruralista; http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100608/not_imp563132,0.php; http://www.agronline.com.br/agronoticias/noticia.php?id=23650).
Por hora, o meio ambiente brasileiro ganha um fôlego. Mas não podemos nos enganar. Serão várias cobranças. Como se o juiz fosse o melhor amigo do cobrador, a sensação é que serão tantas quantas necessárias ao convertimento. O próximo chute já está marcado. Ilustrando bem a péssima intenção do dono da bola, das traves e do campo todo, na próxima terça-feira, coincidentemente dia em que os torcedores estarão ligados em um outro jogo. Não percam.
Passado o primeiro chute, a reflexão que fica é de como somos vulneráveis neste país. Além do terror causado pela violência do correntão (forma usada para a derrubada de florestas, em que se prende uma corrente em dois tratores que passam impiedosamente sobre a mata), que avança violentamente a "fronteira agrícola" sobre qualquer direito ao "meio ambiente ecológicamente equilibrado", como reza a nossa Carta Magna, fica uma outra impressão, por enquanto, mais difícil de compreender: como é que um relatório pobre, mesquinho, raso, cheio de incoerências, pessimamente informado e juvenil como esse pode acarretar tamanha reviravolta, se propondo como alternativa a um conjunto legal de mais de trinta anos?
No momento, fisioterapeutas, médicos, massagistas e outros estão em campo na tentativa de revitalizar um pouco mais o nosso goleiro. E que venha terça-feira.
Do "lado oposto do ringue", ajeitando sedento a bola na marca do penalti, a liderança (?) política brasileira responsável por, após tanto tempo, levar o campeonato para seu lado, qualquer que seja o custo para tal. A situação é extremamente tensa. Ao contrário de vezes anteriores, o meio ambiente brasileiro aparenta estar em situação de absoluta vulnerabilidade e, debaixo de traves ameaçadoras, não parece ser capaz de oferecer a segurança necessária.
O juiz apita. O relatório sobre as mudanças do Código Florestal começa a ser lido.
O correr do atacante, para estranhamento do público, demonstra algo de desajeitado, como se a tarefa tivesse sido estendida a alguém inapto. Não treinou? Não consultou especialistas no assunto? Achou que qualquer coisa valeria? Os outros jogadores do time, nesse momento de decisão em que podem ser expostos diante do público crítico, haviam desaparecido.
Para alívio da torcida pelo meio ambiente, o chute proferido se saiu tosco. Daqueles que, se narrado pelas vozes radiofônicas de Ribeirão Preto, seriam imediatamente seguidos do "jingle" separado especialmente para quando a bola se perde, desolada, no fundo do campo e por demais longe do objetivo: "Good bye my love!".
Apesar de longe dos olhos do grande público, mais preocupado com outra seleção, a "pernaiada" do atacante é observada de perto por alguns presentes na contenda, que não se privam de comentá-la (artigos publicados na folha e no estadão. Alguns não dão acesso livre mas podem ser encontrados em outros sítios: http://www.gabeira.com.br/noticias/temas/meio-ambiente/2379-parlamentar-comunista-vira-ideologo-da-bancada-ruralista; http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100608/not_imp563132,0.php; http://www.agronline.com.br/agronoticias/noticia.php?id=23650).
Por hora, o meio ambiente brasileiro ganha um fôlego. Mas não podemos nos enganar. Serão várias cobranças. Como se o juiz fosse o melhor amigo do cobrador, a sensação é que serão tantas quantas necessárias ao convertimento. O próximo chute já está marcado. Ilustrando bem a péssima intenção do dono da bola, das traves e do campo todo, na próxima terça-feira, coincidentemente dia em que os torcedores estarão ligados em um outro jogo. Não percam.
Passado o primeiro chute, a reflexão que fica é de como somos vulneráveis neste país. Além do terror causado pela violência do correntão (forma usada para a derrubada de florestas, em que se prende uma corrente em dois tratores que passam impiedosamente sobre a mata), que avança violentamente a "fronteira agrícola" sobre qualquer direito ao "meio ambiente ecológicamente equilibrado", como reza a nossa Carta Magna, fica uma outra impressão, por enquanto, mais difícil de compreender: como é que um relatório pobre, mesquinho, raso, cheio de incoerências, pessimamente informado e juvenil como esse pode acarretar tamanha reviravolta, se propondo como alternativa a um conjunto legal de mais de trinta anos?
No momento, fisioterapeutas, médicos, massagistas e outros estão em campo na tentativa de revitalizar um pouco mais o nosso goleiro. E que venha terça-feira.
domingo, 6 de junho de 2010
Dia mundial do meio ambiente
Hoje é dia mundial do meio ambiente e, aqui no Brasil, pode ser o último da legislação ambiental conforme a conhecemos.
Já foi exaustivamente publicada neste espaço e também em vários outros a iniciativa capitaneada por Aldo Rebelo para retalhar um conjunto de leis de tentam dar suporte jurídico para a proteção ambiental no Brasil. O resultado disso (o relatório da Comissão Mista) deve sair nos próximos dias.
O Brasileiro deve devotar uma atenção a esse documento, seus pressupostos e suas propostas. Deve também se perguntar criticamente, o que estará por trás (e, por que não, quem estará por trás) do discurso benévolo do político (benévolo porque direcionado ao "pobre pequeno produtor"). Quem será realmente beneficiado por suas propostas, a iniciativa privada ou o bem público? O brasileiro, de hoje e de amanhã?
Por fim, deve contextualizar todo esse movimento da bancada ruralista lembrando-se que quem faz a proposta faz parte daquela que não é a mais confiável parcela de brasileiros: a classe política, campeã do dinheiro na cueca, do superfaturamento, do mensalão e outras manobras.
A partir do desdém, do medo e das alterações que fizeram no projeto da ficha limpa para torná-lo o mais próximo possível de algo que não muda o que já existe, em desrespeito a pelo menos um milhão e seiscentas mil assinaturas de brasileiros preocupados com a ocupação das instâncias políticas nacionais por bandidos profissionais, podemos deduzir que o que menos está em pauta aqui é o bem estar do brasileiro ou mesmo dos produtores rurais do Brasil. Há uma outra lógica por trás, já por nós conhecida mas que mesmo assim não é capaz de constrangê-los: o toma lá dá cá mesquinho e no mínimo irresponsável praticado a céu aberto. E a moeda DA VEZ é o meio ambiente. Não se sabe qual será a moeda da próxima vez.
O problema é que o estrago a ser proposto será irreversível. Como comumente dizemos no universo da biologia, extinção é para sempre. No dia mundial do meio ambiente, vamos nos colocar publicamente para que não vivenciemos em um futuro próximo a extinção da nossa legislação ambiental.
Já foi exaustivamente publicada neste espaço e também em vários outros a iniciativa capitaneada por Aldo Rebelo para retalhar um conjunto de leis de tentam dar suporte jurídico para a proteção ambiental no Brasil. O resultado disso (o relatório da Comissão Mista) deve sair nos próximos dias.
O Brasileiro deve devotar uma atenção a esse documento, seus pressupostos e suas propostas. Deve também se perguntar criticamente, o que estará por trás (e, por que não, quem estará por trás) do discurso benévolo do político (benévolo porque direcionado ao "pobre pequeno produtor"). Quem será realmente beneficiado por suas propostas, a iniciativa privada ou o bem público? O brasileiro, de hoje e de amanhã?
Por fim, deve contextualizar todo esse movimento da bancada ruralista lembrando-se que quem faz a proposta faz parte daquela que não é a mais confiável parcela de brasileiros: a classe política, campeã do dinheiro na cueca, do superfaturamento, do mensalão e outras manobras.
A partir do desdém, do medo e das alterações que fizeram no projeto da ficha limpa para torná-lo o mais próximo possível de algo que não muda o que já existe, em desrespeito a pelo menos um milhão e seiscentas mil assinaturas de brasileiros preocupados com a ocupação das instâncias políticas nacionais por bandidos profissionais, podemos deduzir que o que menos está em pauta aqui é o bem estar do brasileiro ou mesmo dos produtores rurais do Brasil. Há uma outra lógica por trás, já por nós conhecida mas que mesmo assim não é capaz de constrangê-los: o toma lá dá cá mesquinho e no mínimo irresponsável praticado a céu aberto. E a moeda DA VEZ é o meio ambiente. Não se sabe qual será a moeda da próxima vez.
O problema é que o estrago a ser proposto será irreversível. Como comumente dizemos no universo da biologia, extinção é para sempre. No dia mundial do meio ambiente, vamos nos colocar publicamente para que não vivenciemos em um futuro próximo a extinção da nossa legislação ambiental.
quinta-feira, 1 de abril de 2010
sábado, 13 de março de 2010
Homenagem
Quem souber
Dizer a exata explicação
Me diz como pode acontecer
Um simples canalha mata um rei
Em menos de um segundo
Oh minha estrela amiga
Por que você não fez a bala parar?
(Trecho da "Canção do Mundo Novo", de Beto Guedes)
Homenagem do Reflexações Ambientais ao Cartunista Glauco, cuja leitura diária foi sempre considerada garantia de um dia melhor.
A vida realmente vai ficar mais triste sem ele.
Dizer a exata explicação
Me diz como pode acontecer
Um simples canalha mata um rei
Em menos de um segundo
Oh minha estrela amiga
Por que você não fez a bala parar?
(Trecho da "Canção do Mundo Novo", de Beto Guedes)
Homenagem do Reflexações Ambientais ao Cartunista Glauco, cuja leitura diária foi sempre considerada garantia de um dia melhor.
A vida realmente vai ficar mais triste sem ele.
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Impressões sobre a Audiência Pública para se discutir o Código Florestal Brasileiro
Teria sido um enorme sucesso a Audiência Pública realizada em Ribeirão Preto, no dia 03/02/10, sobre alterações do Código Florestal Brasileiro, não tivesse sido ela uma Audiência Pública, mas sim um congresso ruralista ou ainda um comício político. Realizada sob o pressuposto de se levantarem informações e sugestões para compor uma proposta “equilibrada” de alteração do Código, segundo a Comissão Mista da Câmara dos Deputados, responsável pelo evento, a audiência foi tudo menos equilibrada. A mesa foi composta por deputados da Comissão (seis, se não me engano, dos quais cinco foram radicalmente contra o Código Florestal) e um outro número de representantes do alto escalão de associações do agronegócio brasileiro. Além desses, estiveram presentes também dez convidados para se pronunciar, entre pesquisadores, advogados e outros. O resultado aqui não foi menos tendencioso: oito falaram contra o Código Florestal e apenas dois se colocaram em favor.
Interessante mesmo foi a estratégia de discurso utilizada pelo grupo do agronegócio. Colocações já conhecidas, é verdade, mas que em conjunto demonstraram bem a retórica:
Primeiramente, apesar de a mesa ter sido composta principalmente de deputados ligados ao agronegócio e de representantes de associações ruralistas, como já dito, todos os discursos foram orientados para o pequeno produtor, como se esse fosse realmente o interesse por trás de tudo. O absurdo chegou ao ponto de se referirem à produção de maçã em Santa Catarina e, em nenhum momento, às grandes propriedades do país e os produtos que realmente têm alguma relevância em termos nacionais (cana, soja, carne etc) e seus métodos produtivos!
Em segundo lugar, do discurso ser condicionado a relacionar o agronegócio à “produção de alimentos”, sem qualquer alusão à cana-de-açúcar (cara para a nossa região), à soja e outros produtos de exportação, responsáveis pela ocupação de grande parte do território do estado e do Brasil.
Outras questões são também utilizadas, na mesma linha, como culpar o meio ambiente pelo não completo sucesso do agronegócio, desviar a atenção das questões ambientais do campo para as cidades, afirmar que o sucesso do agronegócio vai acabar com a fome do brasileiro e comparar a cobertura florestal do país com a da Europa, para reclamar o direito de acabar também com nossas florestas. A pobreza nas falas chegou a um estado tão grande que impediu qualquer reflexão sobre colocações coerentes que até surgiram em alguns raros momentos.
Quando os argumentos em favor das alterações do Código Florestal se acabavam (o que ocorria rapidamente nas falas individuais), iniciavam-se então os ataques aos “ambientalistas”. Os adjetivos utilizados pelos palestrantes, inclusive os próprios deputados, foram vários, entre os quais “bandidos”, “inocentes”, “infantis”, “ideólogos” e “manipulados”. Bandidos porque querem roubar as “pessoas de bem”, os “pequenos produtores de alimentos”; inocentes e infantis porque, quando crescerem e aprenderem, verão o mundo de outra forma; ideólogos porque, na verdade, os ruralistas não conhecem o real significado da palavra e acham que ideologia é uma qualidade ou defeito de quem contraria seus interesses e pensamento. Não conseguem ver sua própria posição como ideológica; e manipulados porque seus discursos e estratégias são determinadas por “ONGs internacionais que não respeitam os reais interesses brasileiros” (o que, inclusive desrespeita o brasileiro, porque indica que não temos senso crítico suficiente e não conseguimos pensar por nós mesmos). Frases que faziam a platéia ruralista, em pé, delirar. A ausência de conteúdo teve como alvo até o IBGE, considerado por um expositor como um órgão de pesquisa “ruim” (porque, é claro, contradiz as “verdades” ruralistas) e o Ministério Público, também a serviço das ONGs internacionais.
Ora, as frases de efeito e palavras de ordem utilizadas pelos ruralistas criaram um ambiente tão entorpecedor que impediram a audiência de reconhecer, por exemplo, que nenhuma grande empresa do agronegócio brasileiro é, de fato, brasileira (grandes empresas de sementes e agrotóxicos, laticínios e até usinas de açúcar e álcool). Assim, que interesse brasileiro estava sendo defendido por eles? Também, que o pequeno produtor, assim como o pequeno qualquer coisa no país, não é prioridade para ninguém. Não fosse isso verdade, não seriam tão mal remunerados pela tonelada da cana, a caixa de laranja e o litro do leite. Da mesma forma, que a fome do brasileiro vai continuar independentemente da produção do agronegócio, simplesmente porque essa produção jamais será direcionada a quem não pode pagar por ela.
Ao final do evento e decantado o mal estar causado pelo circo de horrores e pobreza da maioria das falas, duas sensações remanesceram, uma boa e uma ruim: a boa é que a esmagadora maioria dos argumentos ruralistas não se sustenta a pouco menos de dez minutos de uma conversa séria e aprofundada. A ruim, de que esses dez minutos jamais serão propiciados por essa Comissão Mista e suas audiências públicas.
Interessante mesmo foi a estratégia de discurso utilizada pelo grupo do agronegócio. Colocações já conhecidas, é verdade, mas que em conjunto demonstraram bem a retórica:
Primeiramente, apesar de a mesa ter sido composta principalmente de deputados ligados ao agronegócio e de representantes de associações ruralistas, como já dito, todos os discursos foram orientados para o pequeno produtor, como se esse fosse realmente o interesse por trás de tudo. O absurdo chegou ao ponto de se referirem à produção de maçã em Santa Catarina e, em nenhum momento, às grandes propriedades do país e os produtos que realmente têm alguma relevância em termos nacionais (cana, soja, carne etc) e seus métodos produtivos!
Em segundo lugar, do discurso ser condicionado a relacionar o agronegócio à “produção de alimentos”, sem qualquer alusão à cana-de-açúcar (cara para a nossa região), à soja e outros produtos de exportação, responsáveis pela ocupação de grande parte do território do estado e do Brasil.
Outras questões são também utilizadas, na mesma linha, como culpar o meio ambiente pelo não completo sucesso do agronegócio, desviar a atenção das questões ambientais do campo para as cidades, afirmar que o sucesso do agronegócio vai acabar com a fome do brasileiro e comparar a cobertura florestal do país com a da Europa, para reclamar o direito de acabar também com nossas florestas. A pobreza nas falas chegou a um estado tão grande que impediu qualquer reflexão sobre colocações coerentes que até surgiram em alguns raros momentos.
Quando os argumentos em favor das alterações do Código Florestal se acabavam (o que ocorria rapidamente nas falas individuais), iniciavam-se então os ataques aos “ambientalistas”. Os adjetivos utilizados pelos palestrantes, inclusive os próprios deputados, foram vários, entre os quais “bandidos”, “inocentes”, “infantis”, “ideólogos” e “manipulados”. Bandidos porque querem roubar as “pessoas de bem”, os “pequenos produtores de alimentos”; inocentes e infantis porque, quando crescerem e aprenderem, verão o mundo de outra forma; ideólogos porque, na verdade, os ruralistas não conhecem o real significado da palavra e acham que ideologia é uma qualidade ou defeito de quem contraria seus interesses e pensamento. Não conseguem ver sua própria posição como ideológica; e manipulados porque seus discursos e estratégias são determinadas por “ONGs internacionais que não respeitam os reais interesses brasileiros” (o que, inclusive desrespeita o brasileiro, porque indica que não temos senso crítico suficiente e não conseguimos pensar por nós mesmos). Frases que faziam a platéia ruralista, em pé, delirar. A ausência de conteúdo teve como alvo até o IBGE, considerado por um expositor como um órgão de pesquisa “ruim” (porque, é claro, contradiz as “verdades” ruralistas) e o Ministério Público, também a serviço das ONGs internacionais.
Ora, as frases de efeito e palavras de ordem utilizadas pelos ruralistas criaram um ambiente tão entorpecedor que impediram a audiência de reconhecer, por exemplo, que nenhuma grande empresa do agronegócio brasileiro é, de fato, brasileira (grandes empresas de sementes e agrotóxicos, laticínios e até usinas de açúcar e álcool). Assim, que interesse brasileiro estava sendo defendido por eles? Também, que o pequeno produtor, assim como o pequeno qualquer coisa no país, não é prioridade para ninguém. Não fosse isso verdade, não seriam tão mal remunerados pela tonelada da cana, a caixa de laranja e o litro do leite. Da mesma forma, que a fome do brasileiro vai continuar independentemente da produção do agronegócio, simplesmente porque essa produção jamais será direcionada a quem não pode pagar por ela.
Ao final do evento e decantado o mal estar causado pelo circo de horrores e pobreza da maioria das falas, duas sensações remanesceram, uma boa e uma ruim: a boa é que a esmagadora maioria dos argumentos ruralistas não se sustenta a pouco menos de dez minutos de uma conversa séria e aprofundada. A ruim, de que esses dez minutos jamais serão propiciados por essa Comissão Mista e suas audiências públicas.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
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