Como professor, tenho ouvido bastante falarem sobre a geração Y. A mensagem é, em geral, contraditória: o tom da conversa coloca, ao mesmo tempo, essa geração como uma ameaça às demais por suas qualidades (cultura de redes, habilidades com informática, desapego etc, etc, etc) mas a ênfase maior recai sobre suas limitações (são intolerantes e impacientes, têm dificuldade para se concentrar etc). É claro que o interesse razoavelmente velado aqui é: como os professores devem lidar com essas limitações de forma que as salas de aula, e portanto as instituições de ensino, não se esvaziem. O resumo dessa geração parece se corporificar no Twitter: mensagens curtas, lineares e descartáveis e sem um rumo certo.
Pois bem, aí me lembro também do Edgar Morin que, em mais de uma oportunidade, coloca que no mundo não existe o simples, apenas o simplificado: como é que essa geração vai lidar com a complexidade do mundo sem serem capazes de se concentrar, de rebuscar o pensamento e a comunicação? Uma resposta para isso, pelo menos temporária, parece ter-me surgido um dia desses: indivíduos e grupos, em meio a esse oceano chamado de geração Y, devem estar sendo pacientemente formados com todos os "diferenciais" (a concentração, a paciência, a tolerância) necessários para se compreender a complexidade do mundo e da vida. Ao meu ver, esses serão os criadores de tendências, os líderes. Os demais, continuarão seguindo, fazendo comentários inteligentes cada vez mais curtos sobre o mundo em sua volta.
Espaço inspirado pela "práxis" Paulofreireana em que ação e reflexão são constituintes indissociáveis no processo de ser no mundo.
Páginas do Reflexações
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Entre tropas, elites, bois e a eleição.
"Quando dois elefantes brigam, quem paga é a grama".
Me aproprio dessa idéia de Zygmunt Bauman para escrever o texto abaixo.
De que desviam os dois candidatos à presidência quando jogam no lixo todo o tempo existente para esclarecer o povo sobre seus projetos (se é que existem) políticos e insistem em uma lastimável demonstração de pobreza de recursos de todo tipo (educacional, respeito, dignidade etc)? É isso aí que vai governar o país amanhã? É com o tipo de "visão estratégica" do palavrão, do dinheiro da cueca, da compra de votos para reeleição, do mensalão, que o Brasil vai se "desenvolver"? Essas são as duas grandes "visionárias lideranças" que nos levarão rumo à utopia?
O teatro está aí para quem quer assistir (e aqueles que não o fizerem, não perdem nada). Enquanto isso, seguidores bovinos com enormes tapa-olhos botam lenha na fogueira. O que ganham com isso? 15 minutos de fama? Um carguinho de terceiro escalão? Uma bolsa alguma coisa? Uma concessão?
Debaixo disso tudo, meus amigos, nós.
Esta pseudo-confusão só tenta desesperadamente esconder as duas mediocridades (e não falo aqui apenas dos candidatos, mas de seus partidos também) entre as quais temos que escolher.Não duvidaria se essa confusão fosse, de fato, combinada entre eles. Fico imaginando a conversa bem humorada entre eles em um churras: "ha, ha, ha, você viu a ovada? Aposto que vai ficar horas na mídia".
No final, vão ficar se justificando que não tiveram tempo para nada, que "infelizmente" não conseguiram discutir suas honrosas e dignas propostas por conta da selvageria "do outro". E dá-lhe aplausos bovinos, sorrisos, camisetas, bonés, bonequinhos e cores para o céu.
O filme "Tropa de elite 2" mostra muito didaticamente como que as pequenas corrupções diárias, de todos, se articulam com os interesses daqueles que buscam posições poderosas para satisfazerem seus interesses.
São impressionantes as tentativas de se promover a própria santidade sem nem conseguir esconder o sangue nas mãos. "Não sei de nada. Não sei de quem é o sangue aqui nas minhas mãos e escorrendo pelos meus dentes. Não sei, não vi, mas se souber, vou tomar as devidas medidas".
Lastimável, simplesmente lastimável.
Múúúúúúúúúúú!!!!!
Me aproprio dessa idéia de Zygmunt Bauman para escrever o texto abaixo.
De que desviam os dois candidatos à presidência quando jogam no lixo todo o tempo existente para esclarecer o povo sobre seus projetos (se é que existem) políticos e insistem em uma lastimável demonstração de pobreza de recursos de todo tipo (educacional, respeito, dignidade etc)? É isso aí que vai governar o país amanhã? É com o tipo de "visão estratégica" do palavrão, do dinheiro da cueca, da compra de votos para reeleição, do mensalão, que o Brasil vai se "desenvolver"? Essas são as duas grandes "visionárias lideranças" que nos levarão rumo à utopia?
O teatro está aí para quem quer assistir (e aqueles que não o fizerem, não perdem nada). Enquanto isso, seguidores bovinos com enormes tapa-olhos botam lenha na fogueira. O que ganham com isso? 15 minutos de fama? Um carguinho de terceiro escalão? Uma bolsa alguma coisa? Uma concessão?
Debaixo disso tudo, meus amigos, nós.
Esta pseudo-confusão só tenta desesperadamente esconder as duas mediocridades (e não falo aqui apenas dos candidatos, mas de seus partidos também) entre as quais temos que escolher.Não duvidaria se essa confusão fosse, de fato, combinada entre eles. Fico imaginando a conversa bem humorada entre eles em um churras: "ha, ha, ha, você viu a ovada? Aposto que vai ficar horas na mídia".
No final, vão ficar se justificando que não tiveram tempo para nada, que "infelizmente" não conseguiram discutir suas honrosas e dignas propostas por conta da selvageria "do outro". E dá-lhe aplausos bovinos, sorrisos, camisetas, bonés, bonequinhos e cores para o céu.
O filme "Tropa de elite 2" mostra muito didaticamente como que as pequenas corrupções diárias, de todos, se articulam com os interesses daqueles que buscam posições poderosas para satisfazerem seus interesses.
São impressionantes as tentativas de se promover a própria santidade sem nem conseguir esconder o sangue nas mãos. "Não sei de nada. Não sei de quem é o sangue aqui nas minhas mãos e escorrendo pelos meus dentes. Não sei, não vi, mas se souber, vou tomar as devidas medidas".
Lastimável, simplesmente lastimável.
Múúúúúúúúúúú!!!!!
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Ano Internacional da Biodiversidade
Teve início na manhã desta segunda-feira em Nagoya, no Japão, a décima edição da Conferência das Partes da Convenção da Organização das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (COP-10).A Conferência deverá inundar, nos próximos dia, a mídia com reportagens a respeito da situação global da biodiversidade. Finalmente um pouco de oxigenação em um assunto que ficou asfixiado pela quase exclusividade das discussões relativas às emissões de carbono. É claro, emissões de carbono lidam com interesses de enormes corporações e grupos políticos e permitem a mitigação do problema usando-se a mesma tecla de sempre: os investimentos em tecnologia. Assim, ganham empresas e países que detém as tecnologias.
Agora não, a perda da biodiversidade decorre de um modo de vida e da colonização da natureza pela artificialidade. Preservar e conservar a biodiversidade afeta diretamente os discursos desenvolvimentistas que pregam que os problemas do mundo (pobreza, meio ambiente etc) serão resolvidos com uma dose mais forte do mesmo remédio sendo ministrado há 60 anos. Não tem jeito, preservar é preservar. É deixar lá. É encontrar formas criativas e alternativas de relação. Espero que a cobertura da conferência seja do mesmo tamanho que o problema requer.
Agora não, a perda da biodiversidade decorre de um modo de vida e da colonização da natureza pela artificialidade. Preservar e conservar a biodiversidade afeta diretamente os discursos desenvolvimentistas que pregam que os problemas do mundo (pobreza, meio ambiente etc) serão resolvidos com uma dose mais forte do mesmo remédio sendo ministrado há 60 anos. Não tem jeito, preservar é preservar. É deixar lá. É encontrar formas criativas e alternativas de relação. Espero que a cobertura da conferência seja do mesmo tamanho que o problema requer.
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Ciclofaixa
Ontem (26/09) foi inaugurada em Ribeirão Preto uma ciclofaixa. O primeiro trecho na cidade na história a permitir acesso exclusivo de bicicletas.
Apesar de ter um cunho apenas esportivo/recreacional (tem apenas 6 km e funciona somente aos domingos entre 7 e 13h), já demonstrou o potencial e a demanda existentes para esse tipo de infraestrutura: presença de gerações de famílias transitando juntas pela cidade naquilo que, para a esmagadora maioria das crianças, era um conceito absolutamente extinto: andar de bicicleta na rua!
E essa ciclofaixa permitiu que isso ocorra novamente.
Além de ser um veículo, um exercício, um instigador de novas relações sociais (não apenas entre aqueles que já se conhecem - pessoas da mesma família que agora têm o que fazer na parte da manhã do domingo, juntas!) mas também entre desconhecidos (pois permite bons encontros, conversar, risadas etc), a ciclofaixa é uma possibilidade para o reencontro dos moradores das cidades com a própria cidade. As ruas e avenidas, novamente, se tornam cidades. São reapropriadas, pois agora passamos mais devagar e de forma muito mais prazerosa por caminhos que, em outros momentos, simplesmente me direcionam apressadamente de casa para o trabalho e coisas do tipo.
Com a faixa, Ribeirão vai se aproximando de outras cidades do mundo e do Brasil, muito lentamente, no reconhecimento do direito dos cidadão por lazer público gratuito, seguro e de qualidade e também pela percepção da bicicleta como alternativa de transporte (o que, em muitos lugares, é uma realidade concretizada).
Fico imaginando a dificuldade dos responsáveis pela idéia de convencer outros para que a faixa fosse de fato implantada. Também, é justo que se reconheça a coragem da prefeita e dos secretários envolvidos.
Agora, cabe à população realmente se apropriar deste espaço e fazer dele um direito: um direito a ser mantido e também ampliado.
Apesar de ter um cunho apenas esportivo/recreacional (tem apenas 6 km e funciona somente aos domingos entre 7 e 13h), já demonstrou o potencial e a demanda existentes para esse tipo de infraestrutura: presença de gerações de famílias transitando juntas pela cidade naquilo que, para a esmagadora maioria das crianças, era um conceito absolutamente extinto: andar de bicicleta na rua!
E essa ciclofaixa permitiu que isso ocorra novamente.
Além de ser um veículo, um exercício, um instigador de novas relações sociais (não apenas entre aqueles que já se conhecem - pessoas da mesma família que agora têm o que fazer na parte da manhã do domingo, juntas!) mas também entre desconhecidos (pois permite bons encontros, conversar, risadas etc), a ciclofaixa é uma possibilidade para o reencontro dos moradores das cidades com a própria cidade. As ruas e avenidas, novamente, se tornam cidades. São reapropriadas, pois agora passamos mais devagar e de forma muito mais prazerosa por caminhos que, em outros momentos, simplesmente me direcionam apressadamente de casa para o trabalho e coisas do tipo.
Com a faixa, Ribeirão vai se aproximando de outras cidades do mundo e do Brasil, muito lentamente, no reconhecimento do direito dos cidadão por lazer público gratuito, seguro e de qualidade e também pela percepção da bicicleta como alternativa de transporte (o que, em muitos lugares, é uma realidade concretizada).
Fico imaginando a dificuldade dos responsáveis pela idéia de convencer outros para que a faixa fosse de fato implantada. Também, é justo que se reconheça a coragem da prefeita e dos secretários envolvidos.
Agora, cabe à população realmente se apropriar deste espaço e fazer dele um direito: um direito a ser mantido e também ampliado.
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
A pobreza das defesas políticas
O período das eleições tem se mostrado, no mínimo, interessante. Não digo pela lamentável demonstração dos principais candidatos e seus partidos, mas pelo lado da população.
É impressionante a forma como as pessoas passam a se relacionar com seus candidatos. Nunca viram (a maioria) ao vivo e nem nunca conversaram. No entanto, a medida que o pleito se aproxima, os ânimos fervem.
Pessoas defendem seus candidatos como se defendessem a própria vida. Para tal, fazem uso de um mecanismo pobre de endeusamento. Suas escolhas transformam-se em heróis. São santos absolutos e incapazes do pecado. Seus passados são cristalinos, seus presentes límpidos e seus futuros salvadores.
Os opositores? Representantes do diabo e proponetes de tudo o que é ruim.
Quem perde com isso? Todos nós.
A experiência já deveria ter sido suficiente, para quem tem idade para já ter participado de algumas eleições, que a coisa não é bem assim. Sejamos reais! Todos os candidatos e seus aliados, se tiverem suas fichas, meias e cuecas analisadas, entregarão o caixa 2 da moral, onde seus pecados e atentados contra a população estão profundamente guardados. O oposto, da mesma forma, também vale. Temos alguns políticos famosos por suas caras travessuras mas que, também, deixaram algumas coisas positivas. Já pensou se o cara entrasse lá, ficasse 4 anos e SÓ fizesse coisas ruins?
Não quero com isso parecer pessimista. Prefiro realista. Somos todos assim, em maior ou menor grau, é claro.
A quem serve, então, fingirmos que não? Ao próprio candidato, que é transformado em um ícone superpoderoso e que, posteriormente, caso vencedor, não medirá esforços para utilizar-se desse mesmo poder a sua vontade, muitas vezes contra o bem comum, contra o povo, CONTRA VOCÊ.
Assim, continuem votando em seus candidatos (se possível façam uma busca em suas fichas, cuecas e meias), o defendam, mas não o endeusem. Não votem nele porque não tem erros, mas APESAR dos erros (de preferência, saiba bem quais são esses erros e, se forem muitos e pesados, não hesitem em procurar outra opção melhor).
Os candidatos têm que parar de pensar que o povo é imbecil. No entanto, se não somos capazes de reconhecer isso, que ninguém é santo, então, talvez, é porque eles têm razão.
É impressionante a forma como as pessoas passam a se relacionar com seus candidatos. Nunca viram (a maioria) ao vivo e nem nunca conversaram. No entanto, a medida que o pleito se aproxima, os ânimos fervem.
Pessoas defendem seus candidatos como se defendessem a própria vida. Para tal, fazem uso de um mecanismo pobre de endeusamento. Suas escolhas transformam-se em heróis. São santos absolutos e incapazes do pecado. Seus passados são cristalinos, seus presentes límpidos e seus futuros salvadores.
Os opositores? Representantes do diabo e proponetes de tudo o que é ruim.
Quem perde com isso? Todos nós.
A experiência já deveria ter sido suficiente, para quem tem idade para já ter participado de algumas eleições, que a coisa não é bem assim. Sejamos reais! Todos os candidatos e seus aliados, se tiverem suas fichas, meias e cuecas analisadas, entregarão o caixa 2 da moral, onde seus pecados e atentados contra a população estão profundamente guardados. O oposto, da mesma forma, também vale. Temos alguns políticos famosos por suas caras travessuras mas que, também, deixaram algumas coisas positivas. Já pensou se o cara entrasse lá, ficasse 4 anos e SÓ fizesse coisas ruins?
Não quero com isso parecer pessimista. Prefiro realista. Somos todos assim, em maior ou menor grau, é claro.
A quem serve, então, fingirmos que não? Ao próprio candidato, que é transformado em um ícone superpoderoso e que, posteriormente, caso vencedor, não medirá esforços para utilizar-se desse mesmo poder a sua vontade, muitas vezes contra o bem comum, contra o povo, CONTRA VOCÊ.
Assim, continuem votando em seus candidatos (se possível façam uma busca em suas fichas, cuecas e meias), o defendam, mas não o endeusem. Não votem nele porque não tem erros, mas APESAR dos erros (de preferência, saiba bem quais são esses erros e, se forem muitos e pesados, não hesitem em procurar outra opção melhor).
Os candidatos têm que parar de pensar que o povo é imbecil. No entanto, se não somos capazes de reconhecer isso, que ninguém é santo, então, talvez, é porque eles têm razão.
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Sobre conexões e contatos
"É moçada, o importante na vida não é ter dinheiro, é ter crédito".
Essa era uma fala brincalhona muito comum de um colega de faculdade, o Makyia, toda vez que alguém vinha com a novidade de ter conseguido algo pensado como inatingível, por meio da colaboração de outro alguém. Diante dela a gente ria, não entendia muito bem e continuava a viver.
Acabo de receber um email de uma colega que conheci em 2009, na minha participação na Conferência Mundial de Educação para o Desenvolvimento Sustentável, que ocorreu na Cidade de Bonn, na Alemanha. Keamogetse L Magogwe,de Botsuana, a quem carinhosamente nos referíamos como Keam. Como eu, a Keam fez parte de um grupo de 25 pessoas escolhidas em 25 países para formar uma rede de atores em educação e sustentabilidade.
Recebi uma mensagem dela hoje de manhã me agradecendo muito pelo envio de um email, no início do ano, do qual eu nem me lembrava mais. Vou explicar:
Fiz mestrado em Ciência Ambiental na Universidade de South Bank, de Londres. No início do ano, recebi um contato da universidade oferecendo bolsas de estudos para alunos do Commonwealth (associação de territórios autônomos mas que mantêm uma relação política com a Inglaterra por conta de uma herança histórica colonial) e a direcionei para aqueles amigos que conheci no evento, os 25. Não é que a Keam, que se encaixou no perfil desejado, se increveu no processo e conseguiu a bolsa???
Vejam a mensagem dela:
Hi Daniel!
I'm pleased to let you know that thanx to the email that you forwarded to 'young ESd voice' i have been awarded a scholarship for the MSc Education for Sustainabilty by distance learning. this qualification will enable me to successfully mobilise ESD activities in Botswana, something that i have been having difficulty doing.
Thank you very much for making this opportunity possible for me. I hope you are still keeping well.
Regards
Keamogetse L Magogwe
Principal Education Officer II - French
Curriculum Development and Evaluation
Private Bag 501
Gaborone
Resolvi postar este fato aqui no blog porque ele é característico de nossos tempos. Imaginem a probabilidade, 2 anos atrás, disso ocorrer: sermos selecionados para participar de um grupo comum, formarmos uma rede, eu receber uma mensagem da Universidade da Inglaterra e pensar que algúem da rede poderia se interessar e se empenhar no processo, a pessoa se empenhar no processo e conseguir. Resultado: vai fazer um curso de mestrado sem custos (além do empenho que vai ter que ter para cumprir suas atividades do curso, que serão muitas). Relacionamento. Crédito. Makyia na cabeça! Hoje isso faz todo sentido do mundo.
Vivemos em uma realidade que nos oferece uma oportunidade ímpar de conexão. Estamos em conexão com o mundo por meio de cliques. Mas não podemos no enganar! Como diz William Isaacs* , conexão não significa contato. Para termos contato precisamos de algo mais, o contato é uma qualificação da conexão. Precisamos estar atentos e realmente considerarmos os outros, nos lembrarmos dos outros e estarmos a disposição. Uma disposição desinteressada.
Essa disposição desinteressada é que trará vida para as nossas conexões e desenvolverá, nelas, organicidade, tato: con-tato.
E o contato, por si, nos enriquece com o calor da aproximação real. De tempos em tempos, também, pode propiciar mudanças significativas para as nossas vidas, como eu consegui, muito despretenciosamente, propiciar para a Keam.
Aproveitem suas conexões e as transformem em contato. Con-tato!!!
Vocês possuem experiências do tipo? Vamos compartilhar?
Abaixo, uma foto minha com a Keam na Conferência Mundial da Unesco sobre Educação para o Desenvolvimento Sustentável, em Bonn, na Alemanha, em 2009.
* Livro Dialogue and the art of thinking together, de William Isaacs.
Essa era uma fala brincalhona muito comum de um colega de faculdade, o Makyia, toda vez que alguém vinha com a novidade de ter conseguido algo pensado como inatingível, por meio da colaboração de outro alguém. Diante dela a gente ria, não entendia muito bem e continuava a viver.
Acabo de receber um email de uma colega que conheci em 2009, na minha participação na Conferência Mundial de Educação para o Desenvolvimento Sustentável, que ocorreu na Cidade de Bonn, na Alemanha. Keamogetse L Magogwe,de Botsuana, a quem carinhosamente nos referíamos como Keam. Como eu, a Keam fez parte de um grupo de 25 pessoas escolhidas em 25 países para formar uma rede de atores em educação e sustentabilidade.
Recebi uma mensagem dela hoje de manhã me agradecendo muito pelo envio de um email, no início do ano, do qual eu nem me lembrava mais. Vou explicar:
Fiz mestrado em Ciência Ambiental na Universidade de South Bank, de Londres. No início do ano, recebi um contato da universidade oferecendo bolsas de estudos para alunos do Commonwealth (associação de territórios autônomos mas que mantêm uma relação política com a Inglaterra por conta de uma herança histórica colonial) e a direcionei para aqueles amigos que conheci no evento, os 25. Não é que a Keam, que se encaixou no perfil desejado, se increveu no processo e conseguiu a bolsa???
Vejam a mensagem dela:
Hi Daniel!
I'm pleased to let you know that thanx to the email that you forwarded to 'young ESd voice' i have been awarded a scholarship for the MSc Education for Sustainabilty by distance learning. this qualification will enable me to successfully mobilise ESD activities in Botswana, something that i have been having difficulty doing.
Thank you very much for making this opportunity possible for me. I hope you are still keeping well.
Regards
Keamogetse L Magogwe
Principal Education Officer II - French
Curriculum Development and Evaluation
Private Bag 501
Gaborone
Resolvi postar este fato aqui no blog porque ele é característico de nossos tempos. Imaginem a probabilidade, 2 anos atrás, disso ocorrer: sermos selecionados para participar de um grupo comum, formarmos uma rede, eu receber uma mensagem da Universidade da Inglaterra e pensar que algúem da rede poderia se interessar e se empenhar no processo, a pessoa se empenhar no processo e conseguir. Resultado: vai fazer um curso de mestrado sem custos (além do empenho que vai ter que ter para cumprir suas atividades do curso, que serão muitas). Relacionamento. Crédito. Makyia na cabeça! Hoje isso faz todo sentido do mundo.
Vivemos em uma realidade que nos oferece uma oportunidade ímpar de conexão. Estamos em conexão com o mundo por meio de cliques. Mas não podemos no enganar! Como diz William Isaacs* , conexão não significa contato. Para termos contato precisamos de algo mais, o contato é uma qualificação da conexão. Precisamos estar atentos e realmente considerarmos os outros, nos lembrarmos dos outros e estarmos a disposição. Uma disposição desinteressada.
Essa disposição desinteressada é que trará vida para as nossas conexões e desenvolverá, nelas, organicidade, tato: con-tato.
E o contato, por si, nos enriquece com o calor da aproximação real. De tempos em tempos, também, pode propiciar mudanças significativas para as nossas vidas, como eu consegui, muito despretenciosamente, propiciar para a Keam.
Aproveitem suas conexões e as transformem em contato. Con-tato!!!
Vocês possuem experiências do tipo? Vamos compartilhar?
Abaixo, uma foto minha com a Keam na Conferência Mundial da Unesco sobre Educação para o Desenvolvimento Sustentável, em Bonn, na Alemanha, em 2009.
* Livro Dialogue and the art of thinking together, de William Isaacs.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
A função do Estado na pós-modernidade
O texto abaixo foi escrito a partir da leitura do capítulo 4 do livro “Pela Mão de Alice” , de Boaventura de Souza Santos. O desafio é estabelecer qual deveria ser a função do Estado no sentido de fomentar o fortalecimento e a conexão de comunidades locais no sentido de tornarem-nas atuantes em suas localidades.
O capítulo da obra de Boaventura é em grande parte escrita com um olhar específico para Portugal, um país semi-periféfico na organização do capitalismo mundial. No entanto, compreende-se aqui que esse país compartilha diversas condições com o Brasil, de forma que se compreende como válida a tarefa de uso dos elementos levantados no texto para uma discussão brasileira.
Segundo o autor, algumas promessas da era da modernidade foram cumpridas em excesso e outras não foram cumpridas. Naquelas cumpridas em excesso estão a difusão e valorização da capacidade técnica da humanidade para atuar sobre a natureza (incluindo-se aí o próprio ser humano como natureza) e dos mecanismos de mercado, que foram catapultados sobremaneira a partir da década de 70 do século XX, com o desenvolvimento dos meios de comunicação e das tecnologias da informática e cibernética. A modernidade deixou de fora, no entanto, aspectos ligados à democratização política dos sistemas políticos e à distribuição de renda. O escritor Daniel Yanchelovich resume muito bem os resultados desse processo: somos hoje gigantes tecnológicos e anões sociais.
O Brasil, assim como Portugal, pode ser considerado um país semi-periférico. Isso significa que aqui se encontram convivendo cotidianamente elementos presentes em países centrais (modo de vida nas grandes cidades, altas tecnologias, mercados de luxo etc) e também pré-modernos, considerados pela cultura moderna como ilustrativos de países “atrasados”, que vão desde pobreza extrema até a permanência de formas de vida que não se inserem por completo no que se espera pela cultura ocidental (por exemplo, pequenas propriedades rurais de subsistência, existência de um mercado de troca de mercadorias, desinteresse de elementos tecnológicos, vida comunitária integrada, almoços em família etc).
Acontece que, terminado o século, XX começa a ocorrer uma revalorização de vários daqueles aspectos que a cultura ocidental por muito se esforçou em substituir, pelo entendimento de que permitem, no fim das contas, uma vida mental, individual, comunitária e social mais saudável, além de serem ambientalmente mais adequados. Ilustra o que foi dito a comparação da importância comunitária e para a saúde de um indivíduo de um almoço em família (característica pré-moderna, ineficiente do ponto de vista do mercado) e um almoço “fast-food”, que caracteriza a vida “moderna” e que, no entanto, promove profundas alterações nos tecidos comunitários e também na saúde das pessoas, além das condições ambientais adversas de produção. A essas relações sociais estabelecidas e mantidas lentamente no cotidiano, sem pressa ou interesses escondidos, chamamos hoje de capital social.
Assim, se o Brasil é um país que, aos olhos do mundo, não é considerado desenvolvido, porque não entrou “com os dois pés” na modernidade, por outro lado começamos a reconhecer a riqueza presente aqui desse “capital social”, desse valor mais raro nos países centrais, que está ligado a uma identidade histórica e por laços comunitários de confiança e de solidariedade. Laços esses também frágeis e a todo momento sob risco de quebras.
Diante do colocado, reconhecem-se aqui algumas funções importantes para o Estado brasileiro:
Primeiro de tudo, o reconhecimento e valorização desse capital social, da sua importância histórica e nas escolhas que modelarão os futuros do país. Assim, não podemos mais ter como modelo de “avanço” a destruição do capital social, das peculiaridades locais, da diversidade.
Em segundo e em fluida conexão com o primeiro, que a atuação do Estado sobre aqueles elementos pré-modernos e que carregam consigo ainda características consideradas normais nos séculos anteriores ao XX (uso de mão de obra infantil, manutenção de condições de vida miseráveis para pequenos produtores rurais) seja de se permitir a melhoria nas condições de vida dos envolvidos, mas que isso não signifique um atentado às formas de vida e à coesão social da comunidade. Entende-se aqui, à luz de Wolfgang Sachs , que a (falta de) renda é apenas um dos aspectos que caracterizam a pobreza de um indivíduo e uma sociedade, mas que há outros tão importantes quanto, como a participação nas decisões políticas, a sensação de pertencimento comunitário, a segurança indentitária etc.
O terceiro aspecto compreendido aqui como importante para a atuação do Estado é no sentido de se criarem condições que ampliem a participação do cidadão comum nas decisões políticas que o influenciarão, ou seja, à democracia participativa. Isso deve ser feito com a criação ativa de espaços e fóruns de participação e decisão locais, que, portanto, considerarão e inserirão os valores locais nas decisões tomadas. A complexidade do mundo atual, a velocidade de produção e difusão de informação diminuem cada vez mais a possibilidade de atores agirem sozinhos e demandam o estabelecimento de novas articulações. A história separou o Estado do cidadão comum e esse diálogo necessita ser fomentado.
Para Boaventura de Souza Santos, o caminho rumo a um modo de vida pós-moderno está no reconhecimento das limitações da modernidade e promover rupturas nos modos de pensar e fazer valorizem aquilo que se tem. Com é citado em seu texto: “é importante conhecer a nossa história mas é igualmente importante conhecer a diferença da nossa história”.
O capítulo da obra de Boaventura é em grande parte escrita com um olhar específico para Portugal, um país semi-periféfico na organização do capitalismo mundial. No entanto, compreende-se aqui que esse país compartilha diversas condições com o Brasil, de forma que se compreende como válida a tarefa de uso dos elementos levantados no texto para uma discussão brasileira.
Segundo o autor, algumas promessas da era da modernidade foram cumpridas em excesso e outras não foram cumpridas. Naquelas cumpridas em excesso estão a difusão e valorização da capacidade técnica da humanidade para atuar sobre a natureza (incluindo-se aí o próprio ser humano como natureza) e dos mecanismos de mercado, que foram catapultados sobremaneira a partir da década de 70 do século XX, com o desenvolvimento dos meios de comunicação e das tecnologias da informática e cibernética. A modernidade deixou de fora, no entanto, aspectos ligados à democratização política dos sistemas políticos e à distribuição de renda. O escritor Daniel Yanchelovich resume muito bem os resultados desse processo: somos hoje gigantes tecnológicos e anões sociais.
O Brasil, assim como Portugal, pode ser considerado um país semi-periférico. Isso significa que aqui se encontram convivendo cotidianamente elementos presentes em países centrais (modo de vida nas grandes cidades, altas tecnologias, mercados de luxo etc) e também pré-modernos, considerados pela cultura moderna como ilustrativos de países “atrasados”, que vão desde pobreza extrema até a permanência de formas de vida que não se inserem por completo no que se espera pela cultura ocidental (por exemplo, pequenas propriedades rurais de subsistência, existência de um mercado de troca de mercadorias, desinteresse de elementos tecnológicos, vida comunitária integrada, almoços em família etc).
Acontece que, terminado o século, XX começa a ocorrer uma revalorização de vários daqueles aspectos que a cultura ocidental por muito se esforçou em substituir, pelo entendimento de que permitem, no fim das contas, uma vida mental, individual, comunitária e social mais saudável, além de serem ambientalmente mais adequados. Ilustra o que foi dito a comparação da importância comunitária e para a saúde de um indivíduo de um almoço em família (característica pré-moderna, ineficiente do ponto de vista do mercado) e um almoço “fast-food”, que caracteriza a vida “moderna” e que, no entanto, promove profundas alterações nos tecidos comunitários e também na saúde das pessoas, além das condições ambientais adversas de produção. A essas relações sociais estabelecidas e mantidas lentamente no cotidiano, sem pressa ou interesses escondidos, chamamos hoje de capital social.
Assim, se o Brasil é um país que, aos olhos do mundo, não é considerado desenvolvido, porque não entrou “com os dois pés” na modernidade, por outro lado começamos a reconhecer a riqueza presente aqui desse “capital social”, desse valor mais raro nos países centrais, que está ligado a uma identidade histórica e por laços comunitários de confiança e de solidariedade. Laços esses também frágeis e a todo momento sob risco de quebras.
Diante do colocado, reconhecem-se aqui algumas funções importantes para o Estado brasileiro:
Primeiro de tudo, o reconhecimento e valorização desse capital social, da sua importância histórica e nas escolhas que modelarão os futuros do país. Assim, não podemos mais ter como modelo de “avanço” a destruição do capital social, das peculiaridades locais, da diversidade.
Em segundo e em fluida conexão com o primeiro, que a atuação do Estado sobre aqueles elementos pré-modernos e que carregam consigo ainda características consideradas normais nos séculos anteriores ao XX (uso de mão de obra infantil, manutenção de condições de vida miseráveis para pequenos produtores rurais) seja de se permitir a melhoria nas condições de vida dos envolvidos, mas que isso não signifique um atentado às formas de vida e à coesão social da comunidade. Entende-se aqui, à luz de Wolfgang Sachs , que a (falta de) renda é apenas um dos aspectos que caracterizam a pobreza de um indivíduo e uma sociedade, mas que há outros tão importantes quanto, como a participação nas decisões políticas, a sensação de pertencimento comunitário, a segurança indentitária etc.
O terceiro aspecto compreendido aqui como importante para a atuação do Estado é no sentido de se criarem condições que ampliem a participação do cidadão comum nas decisões políticas que o influenciarão, ou seja, à democracia participativa. Isso deve ser feito com a criação ativa de espaços e fóruns de participação e decisão locais, que, portanto, considerarão e inserirão os valores locais nas decisões tomadas. A complexidade do mundo atual, a velocidade de produção e difusão de informação diminuem cada vez mais a possibilidade de atores agirem sozinhos e demandam o estabelecimento de novas articulações. A história separou o Estado do cidadão comum e esse diálogo necessita ser fomentado.
Para Boaventura de Souza Santos, o caminho rumo a um modo de vida pós-moderno está no reconhecimento das limitações da modernidade e promover rupturas nos modos de pensar e fazer valorizem aquilo que se tem. Com é citado em seu texto: “é importante conhecer a nossa história mas é igualmente importante conhecer a diferença da nossa história”.
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