Um dos aspectos mais fundamentais no enfrentamento das questões relacionadas ao meio ambiente é o desafio ao conceito de "desenvolvimento". Arraigado em nossa cultura, a idéia de "desenvolvimento" é extremamente contraditória, pois ao mesmo tempo em que signica uma coisa boa, justifica todo tipo de barbaridade contra as pessoas, o meio físico e etc.
Desde o final da segunda guerra mundial, em 1945, quando iniciaram-se as articulações no sentido de se dar ao mundo o formato que conhecemos hoje, o "desenvolvimento" se tornou o projeto civilizatório global, sendo adotado na maioria dos países do planeta.
A partir de agora o blog "Reflexações Ambientais" iniciará uma série de artigos que abordarão um pouco das origens e história do desenvolvimento e também suas consequências e contradições.
O conceito de desenvolvimento, e portanto de subdesenvolvimento, foi cunhado pelo então recém eleito presidente dos Estados Unidos, Harry Truman, no dia 20 de Janeiro de 1949. Nessa data, em seu discurso de posse, o presidente colocou pela primeira vez na história que o mundo era formado por dois tipos de países, desenvolvidos e subdesenvolvidos, condições medidas exclusivamente pelos indicadores econômicos Produto Interno Bruto e Renda per Capta. A partir de 1949, portanto, um país desenvolvido seria aquele que tivesse o PIB e a RPC altos.
Essa proposta, empurrada para o mundo pelo contexto em que se dava, é levada para os mais diversos países e se torna o motor civilizatório do ocidente. Assim, os países são estimulados a convergirem suas energias na elevação do PIB e RPC a qualquer custo.
Claramente, o conceito de desenvolvimento nascente, baseado exclusivamente em indicadores econômicos, vai criar, de um lado, uma ideologia que o sustenta até os dias atuais e, do outro, graves consequências, algumas das quais discutidas no próximo artigo.
*Uma excelente leitura sobre o assunto é o livro 'Global Ecology, a new arena of political conflict', de Wolfgang Sachs, Zedbooks, 1995.
Espaço inspirado pela "práxis" Paulofreireana em que ação e reflexão são constituintes indissociáveis no processo de ser no mundo.
Páginas do Reflexações
segunda-feira, 25 de maio de 2009
terça-feira, 28 de abril de 2009
Construção de parcerias pela educação
Um dos temas discutidos pelo grupo Vozes Jovens da Educação para o Desenvolvimento Sustentável foi o de construção de parcerias internacionais para a difusão da educação. Na verdade, o tema foi específico de um de seus sub-grupos e foi iniciado com a leitura de alguns trechos de documentos preparatórios para a Conferência Mundial de Educação para o Desenvolvimento Sustentável, realizada em Bonn, na Alemanha, em Abril de 2009.
Durante as discussões virtuais, que envolveram a mim, do Brasil, uma participante da Suíça e participantes da Nova Zelândia, Quênia, Yemen e Zimbabue, um dos aspectos que me chamou a atençã0 foi o fato da documentação oficial estimular a construção de parcerias principalmente entre o "Norte-Sul-Sul" e entre o "Sul-Sul". E as parcerias entre "Norte e Norte?", pensei eu.
Os países do norte não têm nada a aprender entre eles?
Essas questões retomam o último artigo publicado aqui no Reflexações Ambientais que discute a Sustentabilidade de Cabeça para Baixo: embora exista atualmente um reconhecimento, ainda que tímido, dos padrões de consumo do Norte (e das "porções Norte" dentro do Sul) como a principal causa de insustentabilidade do planeta, a documentação oficial sobre programas de educação para o desenvolvimento sustentável mantém o foco no Sul!!!
Para os países do Norte (e também para a porção mais ocidentalizada dos países do Sul), lidar com a insustentabilidade dos padrões de produção vai significar também lidar com algo inerente muito mais sutil e pervasivo nessas sociedades: a cultura de consumo.
Isso significa que a busca pela sustentabilidade vai ter que assumir a questão do combate à cultura de consumo e, nesse ponto, espera-se que países do Norte possam estabelecer parcerias e compartilhar informações, tecnologias e estratégias sobre como estão lidando efetivamente com o assunto. Ou isso, ou continuarão a desviar as atenções das causas da insustentabilidade para o sul, e os problemas não serão resolvidos.
A abordagem sugerida nos documentos oficiais lembra um pouco o paradigma antigo da transferência de tecnologia, informação e recursos para os países do Sul e legitima a idéia de que, fundamentalmente nas questões de educação e sustentabilidade, quem precisa aprender é o Sul.
Durante as discussões virtuais, que envolveram a mim, do Brasil, uma participante da Suíça e participantes da Nova Zelândia, Quênia, Yemen e Zimbabue, um dos aspectos que me chamou a atençã0 foi o fato da documentação oficial estimular a construção de parcerias principalmente entre o "Norte-Sul-Sul" e entre o "Sul-Sul". E as parcerias entre "Norte e Norte?", pensei eu.
Os países do norte não têm nada a aprender entre eles?
Essas questões retomam o último artigo publicado aqui no Reflexações Ambientais que discute a Sustentabilidade de Cabeça para Baixo: embora exista atualmente um reconhecimento, ainda que tímido, dos padrões de consumo do Norte (e das "porções Norte" dentro do Sul) como a principal causa de insustentabilidade do planeta, a documentação oficial sobre programas de educação para o desenvolvimento sustentável mantém o foco no Sul!!!
Para os países do Norte (e também para a porção mais ocidentalizada dos países do Sul), lidar com a insustentabilidade dos padrões de produção vai significar também lidar com algo inerente muito mais sutil e pervasivo nessas sociedades: a cultura de consumo.
Isso significa que a busca pela sustentabilidade vai ter que assumir a questão do combate à cultura de consumo e, nesse ponto, espera-se que países do Norte possam estabelecer parcerias e compartilhar informações, tecnologias e estratégias sobre como estão lidando efetivamente com o assunto. Ou isso, ou continuarão a desviar as atenções das causas da insustentabilidade para o sul, e os problemas não serão resolvidos.
A abordagem sugerida nos documentos oficiais lembra um pouco o paradigma antigo da transferência de tecnologia, informação e recursos para os países do Sul e legitima a idéia de que, fundamentalmente nas questões de educação e sustentabilidade, quem precisa aprender é o Sul.
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Virando a sustentabilidade de cabeça para baixo
Um dos aspectos muito presentes nas discussões acerca de sustentabilidade ocorridas durante a Conferência Mundial da Unesco sobre Educação para o Desenvolvimento Sustentável é a questão do combate à pobreza extrema. De fato essa meta, primeira das metas do milênio, carrega consigo a idéia de que a existência da pobreza extrema é um obstáculo para a sustentabilidade. Por mais verdadeira que possa ser, considero que a questão deve ser vista de forma mais crítica do que acontece normalmente. Explico:
O foco dos debates no combate à pobreza, primeiro de tudo, mantém a percepção de que os principais entraves à sustentabilidade estão nos países do hemisfério sul, enquanto que é notoriamente sabido e reconhecido, inclusive pelos representantes dos países "do norte", que isso não é possível, já que estes últimos são, de fato, os grandes consumidores da natureza. Mesmo assim, os olhares e o foco das discussões, apesar de todos os problemas a serem enfrentados no norte, se mantém no sul: mexe-se com um lado do problema enquanto que o outro continua como está. O sul continua com a culpa. E aí a lógica é a mesma: o norte precisa transferir tecnologias e informação e etc. para o sul....
Em segundo lugar, este enfoque mantém também uma percepção de que a pobreza (do sul ou de qualquer lugar) é um fenômeno auto-criado e independente e que portanto a atuação deva se dar "lá" no sul. A pergunta que se levanta então (e que eu expus abertamente nas minhas participações no grupo das "Vozes Jovens" e nos workshops sobre consumo sustentável e formação de professores) é a seguinte: a pobreza extrema não é uma criação da riqueza extrema? Os dois não são intrínsecamente relacionados de forma que quando se cria a segunda automaticamente se cria a primeira ? Desse modo, o combate à pobreza extrema não deveria se dar por meio do combate à riqueza extrema? Não deveria ser o combate à riqueza extrema, ao invés da pobreza extrema, então, a meta do milênio? Não estaríamos nós discutindo a sustentabilidade de cabeça para baixo?
Considero essa posição importante por várias razões: a primeira delas, mais óbvia, de finalmente discutirmos as raízes da pobreza e, ao localizarmos suas origens, de fato podermos atuar para resolver o problema, e não só para atuar; a segunda delas, porque o enfoque na pobreza extrema mantém a riqueza extrema como o horizonte de sucesso para os jovens do mundo, sendo justamente o excesso de consumo o motor da insustentabilidade. Portanto, o enfoque mais aberto no combate à riqueza colaboraria para a sustentabilidade também por trazer uma nova mensagem, a de que a sua busca não deva ser perseguida. Isso tudo parece óbvio, mas mudaria por completo as motivações de vida da grande maioria dos habitantes do planeta. O que vocês acham?
O foco dos debates no combate à pobreza, primeiro de tudo, mantém a percepção de que os principais entraves à sustentabilidade estão nos países do hemisfério sul, enquanto que é notoriamente sabido e reconhecido, inclusive pelos representantes dos países "do norte", que isso não é possível, já que estes últimos são, de fato, os grandes consumidores da natureza. Mesmo assim, os olhares e o foco das discussões, apesar de todos os problemas a serem enfrentados no norte, se mantém no sul: mexe-se com um lado do problema enquanto que o outro continua como está. O sul continua com a culpa. E aí a lógica é a mesma: o norte precisa transferir tecnologias e informação e etc. para o sul....
Em segundo lugar, este enfoque mantém também uma percepção de que a pobreza (do sul ou de qualquer lugar) é um fenômeno auto-criado e independente e que portanto a atuação deva se dar "lá" no sul. A pergunta que se levanta então (e que eu expus abertamente nas minhas participações no grupo das "Vozes Jovens" e nos workshops sobre consumo sustentável e formação de professores) é a seguinte: a pobreza extrema não é uma criação da riqueza extrema? Os dois não são intrínsecamente relacionados de forma que quando se cria a segunda automaticamente se cria a primeira ? Desse modo, o combate à pobreza extrema não deveria se dar por meio do combate à riqueza extrema? Não deveria ser o combate à riqueza extrema, ao invés da pobreza extrema, então, a meta do milênio? Não estaríamos nós discutindo a sustentabilidade de cabeça para baixo?
Considero essa posição importante por várias razões: a primeira delas, mais óbvia, de finalmente discutirmos as raízes da pobreza e, ao localizarmos suas origens, de fato podermos atuar para resolver o problema, e não só para atuar; a segunda delas, porque o enfoque na pobreza extrema mantém a riqueza extrema como o horizonte de sucesso para os jovens do mundo, sendo justamente o excesso de consumo o motor da insustentabilidade. Portanto, o enfoque mais aberto no combate à riqueza colaboraria para a sustentabilidade também por trazer uma nova mensagem, a de que a sua busca não deva ser perseguida. Isso tudo parece óbvio, mas mudaria por completo as motivações de vida da grande maioria dos habitantes do planeta. O que vocês acham?
domingo, 5 de abril de 2009
O direito de ter direitos e o dever de lutar por eles
Uma atividade central na discussão das questões ambientais atuais é o desafio da idéia hegemônica de desenvolvimento.
Em aulas, constumo promover este tipo de discussão e gostaria de compartilhar com os leitores as minhas percepções sobre os resultados da última prática que desenvolvi com alunos.
Na ocasião os alunos foram divididos em grupos e solicitados para que listassem ao menos cinco características de um país desenvolvido. Ao final, os grupos adicionariam seus resultados à lousa e uma discussão aberta seria promovida.
Bem, acredito que o que foi encontrado como resultado desta atividade pode ser levado para o país como um todo, pois faz parte do senso comum que forma a subjetividade do "brasileiro".
Assim, algumas das características levantadas e que atribuem a um país a condição de desenvolvimento é que o país deve ser capaz de oferecer aos seus cidadãos segurança, educação, saúde, acesso à renda, boa infra-estrutura, etc. Além disso, emergiram também os aspectos relacionados à capacidade produtiva, à inovação de tecnologias e outras.
Ao final, foi percebido um aspecto comum relacionado a todas as questões levantadas: todas estavam relacionadas aos direitos dos cidadãos.
O que foi surpreendente no processo foi que em momento algum foi citado que um país desenvolvido é também aquele onde os cidadãos têm deveres e responsabilidades. Assim, pôde-se perceber uma espécie de passividade na idéia de desenvolvimento: as boas condições de vida e de produção serão, um dia, oferecidas para nós que, por enquanto, ficamos esperando por elas.
E qual seria nosso dever principal? Acredito que a liga entre direitos e deveres se dá por meio da capacidade de reivindicação. Ou seja, de nada vale um direito garantido no papel se não é traduzido em ação prática e isso não ocorrerá a não ser que a população julgue que reivindicar esse direito seja um dever. Será que em países "desenvolvidos" as pessoas não são mais ativas na reivindicação os seus direitos e como consequência a elas são ofertadas melhores condições de vida? Uma reflexação que deixo para aqueles que visam o desenvolvimento do país.
ps: O título deste artigo foi inspirado pelo subtítulo da Revista O III Berro: o direito de ter direitos e nossa obrigação de lutar por eles.
Em aulas, constumo promover este tipo de discussão e gostaria de compartilhar com os leitores as minhas percepções sobre os resultados da última prática que desenvolvi com alunos.
Na ocasião os alunos foram divididos em grupos e solicitados para que listassem ao menos cinco características de um país desenvolvido. Ao final, os grupos adicionariam seus resultados à lousa e uma discussão aberta seria promovida.
Bem, acredito que o que foi encontrado como resultado desta atividade pode ser levado para o país como um todo, pois faz parte do senso comum que forma a subjetividade do "brasileiro".
Assim, algumas das características levantadas e que atribuem a um país a condição de desenvolvimento é que o país deve ser capaz de oferecer aos seus cidadãos segurança, educação, saúde, acesso à renda, boa infra-estrutura, etc. Além disso, emergiram também os aspectos relacionados à capacidade produtiva, à inovação de tecnologias e outras.
Ao final, foi percebido um aspecto comum relacionado a todas as questões levantadas: todas estavam relacionadas aos direitos dos cidadãos.
O que foi surpreendente no processo foi que em momento algum foi citado que um país desenvolvido é também aquele onde os cidadãos têm deveres e responsabilidades. Assim, pôde-se perceber uma espécie de passividade na idéia de desenvolvimento: as boas condições de vida e de produção serão, um dia, oferecidas para nós que, por enquanto, ficamos esperando por elas.
E qual seria nosso dever principal? Acredito que a liga entre direitos e deveres se dá por meio da capacidade de reivindicação. Ou seja, de nada vale um direito garantido no papel se não é traduzido em ação prática e isso não ocorrerá a não ser que a população julgue que reivindicar esse direito seja um dever. Será que em países "desenvolvidos" as pessoas não são mais ativas na reivindicação os seus direitos e como consequência a elas são ofertadas melhores condições de vida? Uma reflexação que deixo para aqueles que visam o desenvolvimento do país.
ps: O título deste artigo foi inspirado pelo subtítulo da Revista O III Berro: o direito de ter direitos e nossa obrigação de lutar por eles.
terça-feira, 24 de março de 2009
Por uma nova civilização
Enquanto novidades sobre a Conferência não são postadas aqui, decidi incluir mais um arquivo que dá continuidade às minhas reflexações.
As reflexões para este espaço partem de dois princípios básicos, aparentemente separados, que serão explicados a seguir:
1) a crise que experimentamos não é uma crise ambiental mas civilizatória e;
2) Vivemos em uma realidade complexa.
1) A crise que experimentamos não é uma crise ambiental mas civilizatória:
Fala-se muito mais hoje sobre questões ambientais do que se falava há vinte anos. Para ser mais preciso, a ampla cobertura pela mídia dos conflitos, dos impactos e das consequências desses impactos ambientais começou a se dar de forma mais intensa a partir da Eco-92, realizada no Rio de Janeiro. Antes dela, dificilmente assistiríamos a um programa sobre natureza na televisão, leríamos um artigo no jornal ou vestiríamos uma camiseta com tartarugas marinhas. A Conferência, apesar de recheada de resultados duvidosos, certamente serviu para popularizar a questão ambiental, ajudada pelo desenvolvimento das novas tecnologias de comunicação. De lá prá cá, então, meio ambiente passou, paulatinamente, a fazer parte das nossas vidas: mais programas na TV e destaques nas rádios, atenção pela mídia impressa, nascimento de páginas na Internet, inserção do tema em novelas, etc., e isso tudo colaborou com o aumento da massa crítica global acerca do tema. Inicia-se aí a jornada pela resolução de problemas ambientais.
Mas não é preciso um olhar muito atento para se verificar que os problemas que nos afetam hoje não são de exclusividade ambiental. A miséria, a concentração de renda, a violência e a sensação de insegurança, as doenças da modernidade (síndrome do pânico, depressão, obesidade), a insalubridade das cidades, além de outras, são sintomas de que os desafios à frente transcendem meramente a "questão ambiental" e vão mais a fundo: a crise que vivemos é civilizatória. Ou seja, os princípios sobre os quais a nossa sociedade - industrial moderna de consumo de massa - foi construída, e que movem nossas vidas, são insustentáveis e causadores das questões colocadas acima: para que sejamos bem sucedidos necessitamos explorar a natureza, as pessoas e a nós mesmos, e os resultados disso são conhecidos por todos.
2) Vivemos uma realidade complexa:
A complexidade da realidade está ligada ao fato de existirmos em um mundo formado por sistemas e subsistemas, que não pode ser retalhado e nem simplificado. Isso implica na intrínseca ligação entre os constituintes do sistema e não permite, portanto, separação.
O paradigma da separação/fragmentação é um resultado da formatação do pensamento científico moderno a partir da Revolução Científica, e apesar de ter permitido uma série de avanços tecnológicos, trouxe consigo consequências com as quais não conseguimos lidar, simplesmente por insistirmos nas soluções fragmentadas para problemas complexos. O descompromisso com o qual lidamos com o nosso corpo, com a sociedade e com a natureza só pode partir do pensamento de que o que ocorre com o outro lá (que é inclusive o meu corpo) não tem nada a ver comigo aqui.
Há uma corrente de pensamento que considera que estamos iniciando uma nova revolução científica, baseada nos princípios complexos de pensamento. Ao reconhecermos as ligações entre as coisas e suas interdependências, nossos valores fundamentais necessariamente mudarão e, portanto, nossas ações. Estaremos, aí, construindo uma nova civilização.
As reflexões para este espaço partem de dois princípios básicos, aparentemente separados, que serão explicados a seguir:
1) a crise que experimentamos não é uma crise ambiental mas civilizatória e;
2) Vivemos em uma realidade complexa.
1) A crise que experimentamos não é uma crise ambiental mas civilizatória:
Fala-se muito mais hoje sobre questões ambientais do que se falava há vinte anos. Para ser mais preciso, a ampla cobertura pela mídia dos conflitos, dos impactos e das consequências desses impactos ambientais começou a se dar de forma mais intensa a partir da Eco-92, realizada no Rio de Janeiro. Antes dela, dificilmente assistiríamos a um programa sobre natureza na televisão, leríamos um artigo no jornal ou vestiríamos uma camiseta com tartarugas marinhas. A Conferência, apesar de recheada de resultados duvidosos, certamente serviu para popularizar a questão ambiental, ajudada pelo desenvolvimento das novas tecnologias de comunicação. De lá prá cá, então, meio ambiente passou, paulatinamente, a fazer parte das nossas vidas: mais programas na TV e destaques nas rádios, atenção pela mídia impressa, nascimento de páginas na Internet, inserção do tema em novelas, etc., e isso tudo colaborou com o aumento da massa crítica global acerca do tema. Inicia-se aí a jornada pela resolução de problemas ambientais.
Mas não é preciso um olhar muito atento para se verificar que os problemas que nos afetam hoje não são de exclusividade ambiental. A miséria, a concentração de renda, a violência e a sensação de insegurança, as doenças da modernidade (síndrome do pânico, depressão, obesidade), a insalubridade das cidades, além de outras, são sintomas de que os desafios à frente transcendem meramente a "questão ambiental" e vão mais a fundo: a crise que vivemos é civilizatória. Ou seja, os princípios sobre os quais a nossa sociedade - industrial moderna de consumo de massa - foi construída, e que movem nossas vidas, são insustentáveis e causadores das questões colocadas acima: para que sejamos bem sucedidos necessitamos explorar a natureza, as pessoas e a nós mesmos, e os resultados disso são conhecidos por todos.
2) Vivemos uma realidade complexa:
A complexidade da realidade está ligada ao fato de existirmos em um mundo formado por sistemas e subsistemas, que não pode ser retalhado e nem simplificado. Isso implica na intrínseca ligação entre os constituintes do sistema e não permite, portanto, separação.
O paradigma da separação/fragmentação é um resultado da formatação do pensamento científico moderno a partir da Revolução Científica, e apesar de ter permitido uma série de avanços tecnológicos, trouxe consigo consequências com as quais não conseguimos lidar, simplesmente por insistirmos nas soluções fragmentadas para problemas complexos. O descompromisso com o qual lidamos com o nosso corpo, com a sociedade e com a natureza só pode partir do pensamento de que o que ocorre com o outro lá (que é inclusive o meu corpo) não tem nada a ver comigo aqui.
Há uma corrente de pensamento que considera que estamos iniciando uma nova revolução científica, baseada nos princípios complexos de pensamento. Ao reconhecermos as ligações entre as coisas e suas interdependências, nossos valores fundamentais necessariamente mudarão e, portanto, nossas ações. Estaremos, aí, construindo uma nova civilização.
quarta-feira, 11 de março de 2009
Conferência da Unesco sobre Educação para o Desenvolvimento Sustentável
A partir de agora discutirei algumas questões relativas à Conferência da Unesco sobre Educação para o Desenvolvimento Sustentável que se dará em Bonn, na Alemanha, entre os dias 30 de março e 02 de abril deste ano. Fui selecionado para participar, com mais 24 outros jovens entre 18 e 35 anos, da oficina que antecede a Conferência, chamada de Vozes Jovens da Educação para o Desenvolvimento Sustentável.
A Conferência e a oficina têm como objetivo fazer uma avaliação da década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável que está em curso desde 2005 e propor sugestões para a sua segunda metade. Para tal os 25 participantes foram selecionados em 4 diferentes grupos para promoverem discussões virtuais sobre temas pré-definidos e, ao final, comporem um texto que trará a sua contribuição para a conferência. Até o encerramento da oficina, um texto compilando as questões dos 4 grupos será formatado, para então ser apresentado na abertura da Conferência. O grupo em que estou inserido está discutindo a construção de parcerias para a educação para o desenvolvimento sustentável. As discussões se dão virtualmente por meio de uma plataforma que foi construída especificamente para tal e postarei aqui aqueles trechos que eu julgar pertinentes sobre as minhas colocações nas discussões. Abaixo vão alguns deles que eu postei hoje:
"Eu considero que qualquer forma de parceria deve ter necessariamente como meta a construção do empodeiramento, da emancipação, da autonomia e do respeito à auto-determinação local. Nós devemos considerar que a unidade humana é na verdade multipla em suas culturas, valores e crenças e que essa percepção deve estar subjacente à qualquer forma de ação. Essa é a principal troca que pode ser alcançada nessa construção de parcerias. Como já foi colocado, há várias experiencias que podem ser compartilhadas e muito a ser aprendido, principalmente de "baixo para cima" e "entre os de baixo", e portanto o desenvolvimento da educação para o desenvolvimento sustentável deveria fortalecer o contato entre localidades".
"Eu considero que nós temos que nos perguntar quais são os valores subjacentes predominantes que nós promovemos. Estamos nós realmente lidando com os problemas na raiz ou com seus sintomas, enquanto os problemas se tornam mais e mais emaranhados e difíceis de se resolver? É importante que avaliemos as contradições dentro da própria idéia de desenvolvimento sustentável enquanto educamos as pessoas para ele, pois as contradições permitem que as velhas ideologias se transvistam e se pareçam com novas ideologias. Claramente nós não estamos vivendo em um paradigma diferente e isso pode ser facilmente percebido na diferença de agilidade de governos e agências para lidar com a crise financeira global (e a quantidade de dinheiro mobilizado) e para lidar com assuntos relativos à sustentabilidade (como as mudanças climáticas e outros). A vida na Terra é menos sustentável hoje do que ela era dez anos atrás e ainda parece que o tema sustentabilidade é percebido como algo para ser lidado quando a economia está bem. Portanto, os discursos de sustentabilidade precisam ser mais incisivos e seus princípios mais presentes e terem maior influência sobre decisões financeiras e econômicas."
A Conferência e a oficina têm como objetivo fazer uma avaliação da década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável que está em curso desde 2005 e propor sugestões para a sua segunda metade. Para tal os 25 participantes foram selecionados em 4 diferentes grupos para promoverem discussões virtuais sobre temas pré-definidos e, ao final, comporem um texto que trará a sua contribuição para a conferência. Até o encerramento da oficina, um texto compilando as questões dos 4 grupos será formatado, para então ser apresentado na abertura da Conferência. O grupo em que estou inserido está discutindo a construção de parcerias para a educação para o desenvolvimento sustentável. As discussões se dão virtualmente por meio de uma plataforma que foi construída especificamente para tal e postarei aqui aqueles trechos que eu julgar pertinentes sobre as minhas colocações nas discussões. Abaixo vão alguns deles que eu postei hoje:
"Eu considero que qualquer forma de parceria deve ter necessariamente como meta a construção do empodeiramento, da emancipação, da autonomia e do respeito à auto-determinação local. Nós devemos considerar que a unidade humana é na verdade multipla em suas culturas, valores e crenças e que essa percepção deve estar subjacente à qualquer forma de ação. Essa é a principal troca que pode ser alcançada nessa construção de parcerias. Como já foi colocado, há várias experiencias que podem ser compartilhadas e muito a ser aprendido, principalmente de "baixo para cima" e "entre os de baixo", e portanto o desenvolvimento da educação para o desenvolvimento sustentável deveria fortalecer o contato entre localidades".
"Eu considero que nós temos que nos perguntar quais são os valores subjacentes predominantes que nós promovemos. Estamos nós realmente lidando com os problemas na raiz ou com seus sintomas, enquanto os problemas se tornam mais e mais emaranhados e difíceis de se resolver? É importante que avaliemos as contradições dentro da própria idéia de desenvolvimento sustentável enquanto educamos as pessoas para ele, pois as contradições permitem que as velhas ideologias se transvistam e se pareçam com novas ideologias. Claramente nós não estamos vivendo em um paradigma diferente e isso pode ser facilmente percebido na diferença de agilidade de governos e agências para lidar com a crise financeira global (e a quantidade de dinheiro mobilizado) e para lidar com assuntos relativos à sustentabilidade (como as mudanças climáticas e outros). A vida na Terra é menos sustentável hoje do que ela era dez anos atrás e ainda parece que o tema sustentabilidade é percebido como algo para ser lidado quando a economia está bem. Portanto, os discursos de sustentabilidade precisam ser mais incisivos e seus princípios mais presentes e terem maior influência sobre decisões financeiras e econômicas."
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
O início do início
Pois é, resolvi então criar este espaço de compartilhamento.
A idéia inicial era a de que fosse algo ambiental. Então eu me perguntei: o que NÃO É ambiental? E decidi ampliar o escopo para um local de discussão sobre a realidade que vivemos hoje e suas origens históricas e filosóficas. O objetivo final, e espero conseguir envolver a todos nisso, é que deixemos de fazer parte da sociedade do "parecer" e avancemos para a sociedade do "fazer". Deixemos de ser espectadores da vida para nos tornarmos atores da vida, construtores do mundo e, claro, de um mundo melhor. Finalmente nos levantarmos dos confortáveis/aprisionadores sofás e colocarmos a mão na massa na ação de transformação das nossas vidas, da realização prática daquelas idéias lá do fundo de coisas que sempre quisemos fazer mas nunca tivemos a potência para tal. Quebremos a homeostase, o falso estado de conforto que aprisiona e gera insatisfação.
No final das contas, a vida é uma possibilidade única (até onde a gente sabe, pelo menos com o corpo atual) e devemos aproveitar essa oportunidade que tivemos de estarmos aqui para agir positivamente. Pois a não ação, ao contrário do que muitos pensam, é também uma ação, que favorece aqueles que não desejam a nossa ação.
Refletir é fundamental, sonhar é fundamental, mas como dizia Rudyiard Kiplin, não podemos fazer dos nossos sonhos os nossos mestres. Precisamos agir. Daí o nome do blog, reflexação!!!Assim, convido a todos para reflexagir!!!
A idéia inicial era a de que fosse algo ambiental. Então eu me perguntei: o que NÃO É ambiental? E decidi ampliar o escopo para um local de discussão sobre a realidade que vivemos hoje e suas origens históricas e filosóficas. O objetivo final, e espero conseguir envolver a todos nisso, é que deixemos de fazer parte da sociedade do "parecer" e avancemos para a sociedade do "fazer". Deixemos de ser espectadores da vida para nos tornarmos atores da vida, construtores do mundo e, claro, de um mundo melhor. Finalmente nos levantarmos dos confortáveis/aprisionadores sofás e colocarmos a mão na massa na ação de transformação das nossas vidas, da realização prática daquelas idéias lá do fundo de coisas que sempre quisemos fazer mas nunca tivemos a potência para tal. Quebremos a homeostase, o falso estado de conforto que aprisiona e gera insatisfação.
No final das contas, a vida é uma possibilidade única (até onde a gente sabe, pelo menos com o corpo atual) e devemos aproveitar essa oportunidade que tivemos de estarmos aqui para agir positivamente. Pois a não ação, ao contrário do que muitos pensam, é também uma ação, que favorece aqueles que não desejam a nossa ação.
Refletir é fundamental, sonhar é fundamental, mas como dizia Rudyiard Kiplin, não podemos fazer dos nossos sonhos os nossos mestres. Precisamos agir. Daí o nome do blog, reflexação!!!Assim, convido a todos para reflexagir!!!
Assinar:
Postagens (Atom)